07/10/2010

Não temas, filho!

“Seja a vossa vida sem avareza.
Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito:
De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.
Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei;
que me poderá fazer o homem?”
Hebreus 13.5-6.

Contexto: O livro conhecido como epístola aos Hebreus é cheio de particularidades, a começar pelo seu nome – o título “aos Hebreus não é original, mas foi colocado em uso em data bem antiga” .
Seu autor é desconhecido , porém era profundo conhecedor do Antigo Testamento. A carta é tradicionalmente atribuída aos hebreus (provavelmente judeus convertidos ao cristianismo), e o estilo literário é riquíssimo. “Em linguagem e erudição, a carta aos Hebreus está entre as primeiras dos escritos do Novo Testamento. Sua argumentação é tão brilhante quanto é exaltado o seu tema”. Comentaristas afirmam que: “Livro nenhum contém verdade maior nem se comprova mais divinamente inspirado” ; e “Não há parte das Escrituras cuja autoria seja mais controversa, nem cuja inspiração seja mais incontroversa” . O livro tem um caráter exortatório, dividido em ensinos teóricos e conselhos práticos. Grosso modo é destinado a cristãos, que perderam o “sabor da nova vida” em meio às perseguições. Neste aspecto, o autor trabalha proclamando a supremacia de Cristo. Cumprimento do Antigo Testamento, sacerdócio perfeito, fé e o júbilo mesmo em meio aos problemas cotidianos, completam o teor de Hebreus. Os versos de hoje enfocam o contentamento, a companhia e a segurança que somente Jesus pode dar.

Por que não temer?
 Porque Jesus É o Filho Deus;
 porque foi (É) nosso Sumo Sacerdote perfeito e o Cordeiro Santo que retirou o pecado do mundo;
 porque Ele hoje vive a interceder por nós à direita de Deus.

Aplicação: Algo estava acontecendo com esses cristãos. Estavam “desfrutando” do dissabor das perseguições e isto estava abalando a sua fé. Muitos eram perseguidos e oprimidos pelos judeus e estavam voltando ao judaísmo. McDonald  explica que quando um judeu abandonava o judaísmo por outra fé (sendo chamado de apóstata – meshummed) era comumente “punido com uma ou mais das penas seguintes: privação do direito de herança pela família; excomunhão da congregação de Israel; perda de emprego; perda de bens; tormento mental e tortura física; ridicularização pública; prisão; martírio”. O texto pondera que o Autor e Consumador de nossa fé suportou tudo - inclusive a morte de cruz, sendo exaltado por Deus; assim sendo, como Cristo suportou a humilhação, escárnio e a ira divina por nós, não devemos desanimar e nos cansar perante pesadas dificuldades diárias, pois são passageiras.

Jesus é O Filho de Deus. Isto por si só deve nos ser motivo de alegria e de júbilo, que devem ser somados a perseverança mesmo em momentos difíceis. “Todos concordam que o livro é escrito para cristãos, que são instados a manterem-se firmes em sua confissão”; como mostra Hebreus 4.14: “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus, como grande sumo sacerdote que penetrou os céus, conservemos firmes a nossa confissão”. No texto de Hebreus encontramos um ensino sólido sobre Jesus. Sua superioridade sobre anjos, sobre Moisés, sobre Josué, e Arão, bem como Sua autoridade sobre estes é relatado no decorrer do escrito (conforme capítulos 2 ao 5). Seu grande tema é “a finalidade de Jesus Cristo. Ele é a última palavra de Deus para o mundo, e cumpriu todas as expectativas do Velho Testamento, de modo que nada mais será acrescentado” .

Resumindo: todas as promessas sobre a (primeira) vinda do Messias foram cumpridas em Cristo. O homem pode conhecer mais sobre Deus, pois “Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder”. Não há nada superior a Cristo. Não há nada fora do Seu controle. Só nos resta esperar Seu retorno em glória, para que sejamos com Ele revestidos em um corpo glorificado. Olhando para esta proposta escatológica, os problemas cotidianos diminuem, e devemos ansiar pelo encontro com Ele. Tendo em mente esta promessa escatológica podemos perguntar com o autor, ecoando o Salmo 118.6: “O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem?”.

“O tema central na cristologia de Hebreus é Cristo como Sumo Sacerdote” . Seu autor faz um comparativo entre o sacerdócio levítico (dado a Arão) e o de Cristo. Sendo que o primeiro oferecia sangue de animais que não poderiam tornar o homem justo nem purificar a sua consciência ; Cristo oferece o Cordeiro sem mácula (atuando como sacerdote e sacrifício) como oferta vicária e definitiva, reconciliando assim, o homem arrependido com o Deus santo, de uma vez por todas. “Hebreus enriquece enormemente a cristologia do Novo Testamento, especialmente no que tange a obra sacerdotal de Jesus, o caráter definitivo de seu sacrifício...” .

Entendendo esse sacerdócio e nossa condição anterior, a graça amorosa manifestada em nós e por nós, toda e qualquer angústia ou preocupação dissipam-se. O nosso problema outrora insolúvel já foi solucionado por Cristo. A salvação era impossível para o homem: “Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” . O sacerdote levítico propiciava temporariamente o pecado: “Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem. Doutra sorte, não teriam cessado de ser oferecidos, porquanto os que prestam culto, tendo sido purificados uma vez por todas, não mais teriam consciência de pecados?” .
O sacrifício de Cristo fez propiciação (favorecimento) vicário e definitivo: “Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a tua vontade. Remove o primeiro (antiga aliança e sacerdócio levítico) para estabelecer o segundo (sacerdócio de Cristo e nova aliança). Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas (...). Jesus, porém, tendo oferecido, para sempre, um único sacrifício pelos pecados, assentou-se à destra de Deus” .

Spurgeon lança luz sobre esse acontecimento quando diz: “Não podemos nos oferecer diretamente a Deus. Devemos vir a Deus através do nosso Mediador, o Senhor Jesus Cristo. Nada que podemos fazer é em si mesmo aceitável a Deus. Cristo deve cobrir tudo o que fazemos com Seu próprio mérito. Devemos trazer nossos corações e nossas obras ao Senhor Jesus Cristo, que é nosso Sumo Sacerdote” . Se você ainda não entregou seu coração a Cristo, agora é uma boa hora. Creia e arrependa-se de seus pecados e méritos espúrios. Se você já entregou, descanse. Busque o Senhor em oração. Entregue seu fardo a Ele. Fortaleça seu coração e busque forças para suportar as pressões diárias lembrando-se de tudo o que Cristo já fez e o que Ele prometeu que ainda fará. A preocupação inclui um pouco de orgulho, sendo que tememos por centrarmos a solução em nós. O descanso em Cristo inclui humildade, sabendo que somos frágeis, entregamos e confiamos em nosso Sumo Sacerdote definitivo.

Sabendo que Jesus é o Filho de Deus, que Ele é o nosso Sumo Sacerdote, que foi o Cordeiro Imaculado; devemos recordar que Ele (ainda na função sacerdotal) é o nosso Intercessor. Hebreus 7.25 diz: “Por isso, também pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles”. A nossa fé deve ser (e é) expressa no cotidiano. Sabendo que o nosso Salvador e Intercessor é Cristo, e que Ele nos garante salvação e cuidado, nossa fé é demonstrada dia a dia pela atitude positiva e esperança mesmo defronte aos problemas ou em meio as trevas mais assustadoras que nos sobrevém.

Um dos temas que Gundry lista como sendo inesquecível em Hebreus, é a segurança eterna do crente . Nós só podemos entender plenamente o sentido da segurança eterna, quando lembramos que Jesus, à direita do Pai , intercede por nós , assim como fez na Terra ; e que a oração de Jesus é sempre atendida .
Glória ao Deus Eterno, pois, Jesus sendo o nosso Amém podemos nos sentir seguros, doutro modo, se dependêssemos de nossas forças, de nossa coragem, de nossa fidelidade, o temor seria justificado e dificilmente haveria esperança para um de nós. Aquele que nos perdoou nos amparará durante nossas batalhas. E mesmo quando tropeçarmos, recordemos que: “de nenhum modo me (Jesus) lembrarei dos seus pecados e das suas iniqüidades, para sempre” . Há razões para não temermos: “O fato é que em Cristo nós temos segurança, proteção e paz perfeitas”.

Entretanto, há momentos que o temor é despertado, seja por nossa fraqueza ou cegueira das coisas relacionadas a Deus, seja pelas dificuldades ou perseguições que nos são impostas, ou ainda por termos pecado. A avareza tão maquiada de “prosperidade bíblica” dos tempos atuais, também traz temores. Não temer soa como algo surreal. Para fortalecer seu argumento, não devemos esquecer que o autor cita o Antigo Testamento : “De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei”. McDonald chama a atenção para o seguinte fato: “Em grego, uma forte negação é expressa com o uso de duas ou mais negativas. Neste versículo a construção é bastante enfática: ela combina cinco negativas para indicar a impossibilidade de Cristo abandonar os seus” . Ou seja, “a intenção do escritor é demonstrar que o contentamento deve ser baseado no caráter de Deus, especialmente na Sua presença que nunca falha. (...) Quando Deus é o auxílio, não é surpreendente que o crente possa dizer: não temerei.”.



Postado por Alberto M. de Oliveira (Betochurch)

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